AURA (2011)

para orquestra sinfônica

 

Comissionada e estreiada pela Orquestra Filarmônica de Minas Gerais

 

 

 

 

 

No dicionário, a palavra “aura” remete a duas definições diferentes: 1) vento brando, aragem ou sopro; 2) atmosfera que rodeia ou ema- na de um corpo. Sergio Rodrigo parece partir do primeiro significado para irrigar sua imaginação. Assim, na partitura, há algumas palavras emblemáticas marcando o início de seções da peça: “linha,” “giro”, “gesto”, “paisagem” e “atmosfera”. essas palavras estão associadas a qualidades do movimento: movimento linear, por oposição a circular; movimento com deslocamento, em contraste à mobilidade interna. A partir dessa espécie de “pontos cardeais”, o espaço dos movimentos se estrutura e dá nascimento aos diferentes tipos sonoros presentes em Aura. O compositor explora a interação dessas forças de movimen- to e organiza o percurso temporal de suas ideias sonoras através do contraste apropriado entre elas. Assim, há seções estáticas seguidas por trechos movidos ou precipitados; há momentos em que a escuta se perde em uma indiferenciação harmônica e outros, onde há refe- rências nítidas de notas pivôs. Nesse caso, a recorrência das mesmas notas estabelece um retorno ao mesmo lugar, ou um tipo de movi- mento sem deslocamento espacial: mobilidade interna. e todas essas forças se apresentam à nossa imaginação, podendo se associar, de modo imprevisível, às metáforas mais sutis. Tudo depende de nossa imaginação criadora, ou da capacidade de nossa escuta se aliar às provocações e desafios do compositor para completar sua obra. isso porque a música só se completa em nós, isto é, ela necessita de nos- sos sonhos para abrigar sua efemeridade; suas construções voláteis se elevam sobre nossa memória, sua intensidade nos atravessa e tor- na-se preciso converter as sensações em sentidos. 

 

Entretanto, a segunda definição de “aura”, mencionada acima, re- torna após a escuta da música de Sergio Rodrigo. há uma atmosfera expressiva que nos envolve e que nasce – ou emana – diretamente do som. isso ocorre, acredito, de modo crescente no desdobramento temporal da composição, de modo que, ao final, a escuta é presentea- da de modo surpreendente com algo que, até então, aparecia de modo elusivo e pouco evidente.

 

habituamo-nos a associar ideias musicais a melodias. As melodias recortam-se com clareza do fundo harmônico e da trama orquestral. Quando a escuta é desafiada a compreender qualidades de movimen- to, precisamos apreender outro tipo de relações de natureza diferen- te. Trata-se de buscar características globais que se definem entre conjuntos de elementos, a textura. Para isso, é necessário alargar o campo da escuta e ouvir as interferências que os diversos elementos estabelecem entre si. Precisamos perceber as direções que os sons parecem criar, as sensações de proximidade e distância, as impres- sões de velocidade e lentidão. Precisamos, ainda, captar as atmosfe- ras, seguir as linhas, reconhecer a direção dos gestos, a recorrência dos giros e a imobilidade das paisagens sonoras.

Rogério Vasconcelos Barbosa

 

 

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